A escritora e professora efetiva na Escola Secundária de Penafiel, Cidália Fernandes, apresenta, esta sexta-feira, pelas 21h00, na Biblioteca de Lousada, a sua mais recente obra “Antão, no início era o medo”.
A autora destacou, em declarações ao “O Penafidelense” que é “transversal a esta obra a temática do medo e da sua constante superação”.
“Este conceito surge associado às pressões religiosas que vitimaram, num determinado contexto histórico, no século XVI, várias personagens da história, mas também está associado ao medo do desconhecido, o medo do futuro”, disse.
“Penso estar ainda bem presente a experiência que atingiu todos os países em 2020, o medo coletivo, durante a pandemia. Várias versões desse registo também se tornaram personagens desta obra”, afirma.
A escritora, com uma vasta obra já publicada, com presença vários festivais infantojuvenis a nível nacional e vários prémios arrecadados destacou que há neste romance dois “momentos catalisadores que surgem interligados como numa estrutura de ADN”.
“Só a leitura permitirá compreender esta ligação. Porém, este romance move-se numa espécie de continuum do anterior Angélica, Histórias do ser e do não-ser. Refiro que não é necessário ter lido o anterior para se aceder ao entendimento do enredo deste. Distingue-se por esta particularidade: pode socorrer-se ou não do anterior, dependendo do leitor. É a ele que cabe decidir. Conhecer antes ou depois é indiferente”, adianta.
“Relativamente aos autos-de-fé, que fazem parte da Santa Inquisição (que de santa não tinha nada, obviamente), eram o resultado de decisões superiores de um tribunal que, durante vários séculos e numa tentativa de estabelecer a ordem social e religiosa, procurou impor-se através de um despotismo cruel e desumano, condenando muitos inocentes”, frisa.
“Trazer este pedaço macabro da nossa História não é nenhuma obsessão, como eventualmente se pode julgar, é antes uma estratégia de libertação e de resgate. É importante falar das memórias nocentes do passado, para recuperar, no presente, o que há de melhor no humano”, acrescenta.
A autora confessou que esta obra demorou mais tempo a terminar do que pretendia, confirmando que a “pandemia foi o estímulo que impulsionou a história e o esteio que a sustentou”.
“Mais do que pretendia, apesar de haver sempre um momento antes – o da conceção - e um momento depois – o da consecução e preparação para a publicação. Esses momentos não são contemplados nem contados, mas fazem parte da essência da obra, ou, neste caso, da narrativa. Metaforicamente falando, são a raiz e as flores, respetivamente (Os frutos são sempre relativizados e apreciados na individualidade da aprendizagem e da leitura). A pandemia foi o estímulo que impulsionou a história e o esteio que a sustentou. A História do nosso país já registou mais de duas dezenas de epidemias, e tendo em conta a experiência que o mundo viveu em 2020, considerei que era pertinente fazer uma breve referência ao passado mais longínquo. Uma história, por muito simples que seja, permite abrir portas ao conhecimento coletivo, para maior perceção do outro e de nós mesmos. O tempo de escrita propriamente dito foi mais longo do que pretendia, como disse, foi um pouco atribulado, pois sofri um acidente que me impossibilitou de realizar o meu propósito mais cedo. Mas aconteceu no tempo certo”, sublinha.
Cidália Fernandes classifica esta obra, situando-a entre o romance histórico, pois grande parte da narrativa decorre no século XVI, com todas as suas idiossincrasias, sendo, também, “essencialmente um romance psicológico, visto que se foca na vida interior das personagens do passado e do presente”.
“Classificar uma obra implica colocá-la num dos degraus que a literatura tradicionalmente designa como tipos de romance. Se a colocamos num desses degraus, não poderá, em princípio, pertencer aos outros. É certo que, dessa forma, é mais fácil para o leitor aceder às suas preferências de leitura. Porém, quebrar regras faz parte da inovação e da criatividade. O meu romance Antão, no início era o medo viola, de certa forma, essa catalogação”, manifesta.
“Se, por um lado, pode ser considerado um romance histórico, pois grande parte da narrativa decorre no século XVI, com todas as suas idiossincrasias, é também e essencialmente um romance psicológico, visto que se foca na vida interior das personagens do passado e do presente, na angústia e no medo do desconhecido, explorando os seus pensamentos, emoções, motivações e a forma como percebem o mundo que as rodeia, num contexto de pânico quase generalizado, que se viveu no período da pandemia, mas também no contexto do Renascimento, século XVI, como referi”, concretiza.
Falando do resultado desta obra, a escritora recorda que “um livro é um palimpsesto, inevitavelmente aberto a empréstimos visíveis ou não dos livros anteriormente escritos” e que no “processo de elaboração do livro, é sempre importante interagir com a editora”.
“Para a escrita, há necessidade de referenciais históricos, que consultei, obviamente. Um livro é um palimpsesto, inevitavelmente aberto a empréstimos visíveis ou não dos livros anteriormente escritos, do conhecimento registado por séculos de estudo e de pesquisa por parte dos homens que enobrecem esta arte de comunicar, cujo lema é obviamente o crescimento pessoal, social, mental, espiritual”, avança.
“Relativamente ao processo de elaboração do livro, é sempre importante interagir com a editora. Aliás, é do diálogo constante e necessário entre o editor e aquele que conhece a alma do livro melhor do que ninguém, que é o autor, que a obra toma forma. Inicialmente, foi-me sugerida uma capa diferente, que direcionava o leitor para o conteúdo do romance. Não gostei. Falei com o meu amigo arquiteto Manuel Araújo, que já colaborou comigo no projeto E há cravos felizes, um livro infantojuvenil que celebra os 50 anos do 25 de abril, e ele gentilmente acedeu ao meu pedido. O resultado está à vista: um quadro belíssimo como rosto da obra, arquiteturado também graças ao seu apoio. A Dra. Fernanda Moedas, psicóloga, elaborou o prefácio, que permite ao leitor compreender melhor a questão da hipnose, tratada ao longo da história. A Dra. Conceição Miranda continua a ser a minha primeira leitora, a quem agradeço pela cumplicidade e pelas sugestões sempre oportunas. Em conclusão, e repetindo um provérbio africano já conhecido, “Se queres ir depressa, vai sozinho. Se queres ir longe, leva companhia”, recorda.
A autora declara, ainda, que depois da apresentação, desta sexta-feira, em Lousada, sendo que “Antão, no início era o medo” será, também, apresentado dia 25 de outubro em Felgueiras.
“É importante agradecer aos municípios e às respetivas Bibliotecas que me acolhem e que abraçam a cultura com tanta gentileza. Na Biblioteca de Lousada, a apresentação do meu romance Antão decorrerá no dia 19 de setembro; já agendada a próxima será em Felgueiras, no dia 25 de outubro. Aguardo a confirmação de outras nos concelhos limítrofes e em Matosinhos”.
Refira-se que a apresentação oficial desta obra decorreu, no dia 14 de março, no Museu de Penafiel.
Fotografia de destaque: DR
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