Penafiel celebrou o escritor timorense num debate focado na luta pela independência e nos desafios da identidade e educação.
No âmbito da 19.ª edição do festival Escritaria, o auditório do Museu Municipal acolheu no dia 23 de outubro, a mesa-redonda "Somos um pequeno país que viveu um grande pesadelo e de repente acordou abastado". A sessão, moderada por Luís Ricardo Duarte, contou com a participação da diplomata Ana Gomes, da ex-representante timorense Pascoela Barreto e da professora e investigadora Susete Albino.
O encontro começou por invocar o peso histórico da independência. Para Pascoela Barreto, que perdeu vários familiares logo no início da invasão Indonésia, o país livre foi a concretização de um "sonho que ninguém acreditava" perante a luta que tirou a vida a mais de 200 mil timorenses. A diplomata recordou ainda a resiliência e a reorganização da resistência sob a liderança de Xanana Gusmão após perdas avassaladoras no final da década de 70.
Ana Gomes, figura central da diplomacia portuguesa no processo timorense, atribui o sucesso da resistência à "capacidade de organização combinada com a capacidade de abnegação” do povo, que soube articular-se perante a comunidade internacional.
Um dos momentos da sessão incidiu sobre o ensino e a consolidação do idioma. Susete Albino partilhou a sua experiência no terreno durante a reconstrução do sistema educativo do país, lembrando que em 1999 cerca de 80% das infraestruturas escolares foram destruídas. Apesar das dificuldades e da familiaridade com a língua indonésia, a investigadora notou que hoje, no ensino superior, mais de 80% dos jovens inquiridos encaram a língua portuguesa como uma dimensão crucial da sua identidade.
Nesse sentido, Ana Gomes sublinhou que a opção do português como língua oficial por parte dos líderes timorenses assumiu-se como um "elemento essencial de diferenciação nacional". A antiga eurodeputada criticou os governos portugueses pela falta de visão na utilização de recursos públicos. Apontou especificamente a falha na programação da RTP Internacional para a Ásia, que nunca foi mobilizada com programas adequados para ensinar a língua às novas gerações de timorenses.
A reta final do debate centrou-se na figura de Luís Cardoso. Conhecido pelos companheiros do Conselho Nacional de Resistência Timorense como “Tacas”, o autor foi enaltecido como uma voz vital na construção de uma literatura própria para o país.
Nas sugestões de leitura para os estreantes na obra do escritor, Ana Gomes recomendou o romance "Hotel Timor", descrevendo-o como um retrato do edifício que sempre serviu de "centro da vida em Timor", enquanto Susete Albino aconselhou o livro "Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo".
Texto de Catarina Couto (aluna da Universidade do Minho do curso Ciências da Comunicação)
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