Cultura
Julho 27,2026
por Miguel Sousa
Visitas: 1
O escritor, João Morgado, natural da Covilhã, que esteve na última sexta-feira, na Biblioteca de Penafiel” na apresentação do seu livro “Cemitério de Pardais”, obra que tem como tema central a velhice destacou, a propósito do mesmo, que “. vivemos numa sociedade que celebra a juventude, a beleza, a inovação tecnológica, a velocidade, a produtividade, o que empurra os velhos para as margens”. João Morgado, adiantou, em declarações ao “O Penafidelense”, referindo-se à escolha deste tema, a velhice é um “tema que chega com naturalidade”. “Fui vendo as pessoas próximas envelhecer e percebendo que a sociedade olha para este processo com algum embaraço coletivo. Como diz o meu personagem, «a sociedade parece um daqueles móveis que se compram e se montam em casa. Tudo encaixa, mas no fim sobram sempre uns parafusos – são os velhos”, disse. “Depois todos querem olhar para o lado, como se a velhice fosse uma inconveniência, para a família, para os amigos, para as instituições… a verdade é que as pessoas hoje duram mais tempo e exigem mais cuidados, e sobretudo, mais dignidade. O meu protagonista tem 88 anos, está a fazer as contas à vida que viveu, e nesse exercício há uma humanidade extraordinária que me pareceu urgente colocar em palavras…”, acrescentou, sublinhando que este é um assunto estruturante numa sociedade cada vez mais envelhecida. “Vivemos numa sociedade que celebra a juventude, a beleza, a inovação tecnológica, a velocidade, a produtividade, o que empurra os velhos para as margens. Acontece que Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa”, manifestou. “Dentro de poucos anos, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. Isso não é apenas uma estatística — é uma realidade humana e social que exige respostas: das famílias, das instituições, das políticas públicas, mas também da cultura. A literatura tem o dever de dar rosto a quem a sociedade tende a tornar invisível. «Cemitério de Pardais» quer ser uma dessas vozes. Uma chamada de atenção, não um julgamento. «Nunca estamos abandonado…”, atalhou, ainda. O autor esclareceu, ainda, que este é um “livro incómodo” que procura, também, refletir sobre “abandono familiar, o peso da solidão, a degradação física e mental”. “Sim, é um livro incómodo. Mas um com a dimensão humana e poética do protagonista, que é alguém com uma vida interior extraordinariamente rica, com memórias que fervilham, com amor que ainda pulsa, com humor que ainda aparece nos momentos mais inesperados”, afirmo. “A degradação física está lá — seria desonesto ignorá-la — mas o que me interessa verdadeiramente é o contraste entre o corpo que cede e o espírito que resiste. O abandono familiar não é tratado como acusação. É tratado como realidade complexa, feita de omissões, de distâncias que foram crescendo sem que ninguém se apercebesse, de vidas ocupadas demais para parar. Quis que o leitor se reconhecesse nas suas próprias ausências… nas que sente e nas que provoca”, frisou. João Morgado confirmou, ainda, que esta é uma obra sobre a condição humana e o amor, mas que versa, também, sobre a morte. “Acrescentaria a morte. No fundo, «Cemitério de Pardais» é um livro sobre o amor — o amor que persiste muito além da morte, o amor imperfeito e ciumento que o protagonista viveu com a mulher que perdeu num acidente, e que continua a alimentar quase cego, decorando os poemas que ela amava para os continuar a declarar. É também sobre a condição humana na sua expressão mais vulnerável: o momento em que já não podemos fingir que somos imortais, em que temos de fazer as contas ao que fomos e ao que ficou por fazer. José Alberto Damas disse em Penafiel que este livro primeiro se estranha e depois se entranha — e acho que essa é uma excelente definição, pois é um livro que entra…”, concretizou. Quanto ao futuro, o escritor, esclareceu que está a promover uma “nova edição de «Magalhães e a Ave-do-Paraíso», dedicado a Fernão de Magalhães e a primeira volta ao mundo— um homem que levanta questões fascinantes sobre lealdade, pátria e grandeza humana, e que merecia ser revisitado”. “Estou a preparar traduções de algumas obras. Estou também a trabalhar num guião para cinema, uma outra vertente que estou a desenvolver… sempre na minha filosofia de aceitar trabalhos que me desafiem. Enquanto houver histórias para contar e leitores dispostos a ouvi-las, continuarei a fazê-lo”, asseverou. Refira-se que a apresentação deste “Cemitério de Pardais, contou com a análise à obra de José Alberto Damas e foi precedido de uma visita à exposição “reVER ESCRITAS”do artista plástico Bruno Santos. A obra integrou, ainda, um momento musical interpretado pelo guitarrista Daniel Lemos e pelo violoncelista e nyckelharpista Sérgio Calisto.
Apoios
Contatos
Telefone: 255 212 706
Morada: Avenida Egas Moniz, 173
Código-Postal: 4560-546 Penafiel
Email: openafidelense@gmail.com