Dando continuidade ao conjunto de textos que assinalam os vinte anos da Adiscrep - Associação Para o Desenvolvimento de Penafiel, “O Penafidelense” publica, mais um texto, desta feita, do professor Fernando Soares, da disciplina de Artes Performativas.
“A vida é muito curta para ser pequena (1)
Vinte anos … como o tempo passa e como ele passa … faz lembrar um rio sem margens e sem fronteiras, e quando damos por isso já passou.
Passou?
Os poetas é que percebem dessas coisas do tempo.
O tempo passa? Não passa. O tempo aproxima-nos cada vez mais, reduz-nos a um só verso e uma rima de mãos e olhos na luz. (2)
Bom, uma coisa sabemos, (sabemos mesmo?), é que um dia a mais é um dia a menos. É uma matemática estranha. Mas o que é a vida senão isto.
O tempo, dizia, serve para imensas coisas até mesmo e à falta de argumento numa qualquer conversa, assim tipo sobremesa do almoço: acabamos quase sempre a falar dele. Do tempo.
Vinte anos.
Celebre-se então convocando memórias frescas de tempo, na certeza de que partilhando se refaz o tempo, construindo até uma realidade nova, bastando para isso abrir as portas à curiosidade e deixar que o novo vá entrando e se retire daí momentos prazerosos. Essa atitude de experimentar, sem esquecer que o tempo nos molda, permite tantas vezes encontrar os passos que nos conduzem ao encontro de um tempo que já foi e nele refazer o que já havíamos pensado jamais reencontrar, refazer e revivenciar.
Foi a partir desta ideia que me encontrei com umas tantas mulheres e uns poucos homens, que surgiu a possibilidade de oferecer o que havia ganho no tempo e o que ficou no caminho, ele nem sempre luminoso, é verdade, mas por isso mesmo nunca o esquecendo:
No meio do caminho tinha uma pedra,
Tinha uma pedra no meio do caminho,
Tinha uma pedra,
No meio do caminho, tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho,
No meio do caminho tinha uma pedra. (3)
Carregado com tudo isso e as luzes da partilha bem vivas, permitiram, partilhando, iniciar novo caminho recorrendo a uma ferramenta artística multidisciplinar: Artes Performativas.
Para isso e para derrubar paredes levantadas há muito, nada melhor do que deixar entrar peito adentro:
A vida é muito curta para ser pequena
Depois, a proposta de que o material a trabalhar seria a Palavra na sua mais profunda substância: Poesia. A carne e sangue dos homens vertidas pela pena dos poetas.
Passado o tempo de satisfazer a curiosidade, fomos, cada um em seu passo, descobrindo caminhos novos com novos materiais, novas formas, cores, mas sobretudo a descoberta da extraordinária música das palavras que tudo dizem e estão por cá desde o princípio dos tempos. Elas, as palavras que sabem sempre o que sabem. Sabem sempre ao que sabem e nunca são malditas, mas muitas vezes, isso sim, mal ditas.
Assim se foi renovando a curiosidade, depois o interesse e para alguns a indispensabilidade de continuar a descobrir caminhos que conduzem, em cada momento, à partilha, à construção de uma casa aberta à hospitalidade, até à irmandade, à possibilidade de renovar a curiosidade, a percepção de que sendo o tempo curto, era possível, agora, preenchê-lo com a mais profunda luminosidade, no que esta tem de indispensabilidade à vida.
Pelo que me diz respeito, já lá vão, creio, que cinco anos de partilha, recebendo incomensuravelmente mais do que ofereci.
O caminho faz-se caminhando. (4)
É isso mesmo. É por aí que andamos passo a passo, acrescentando, cada um a seu modo, substância aos dias que ora esticam ora mingam, a noites de vigília e outras de sossego possível, andando, indo sempre como um cego teimoso (5) vendo e tocando o que afinal estava ali mesmo tão junto.
Alguém disse:
«Nos Maios antigos, caiavam-se as casas de branco. As roseiras trepavam pelas paredes e as rosas espreitavam às janelas; o perfume à frente, os espinhos atrás.»
Sabemos que os espinhos sempre espreitam, mas é ainda tempo de abrir as portas e janelas ao perfume das flores que trazemos bem no de dentro do peito e da memória. À Primavera dos dias. Do tempo. Do tempo de cada um.
Agora sabemos muito melhor que
«A vida é muito curta para ser pequena»
«O caminho se faz caminhando».
Obrigado ADISCREP
Obrigado Universidade Sénior de Penafiel
Obrigado a todas e a todos”.
Fernando Soares – Artes Performativas
1. Benjamin Disraeli
2,3 – Carlos Drummond de Andrade
4 – António Machado
5 – Alberto Caeiro - in: guardador de rebanhos
Texto da autoria de Fernando Soares
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