Sociedade
Novembro 08,2026
por Miguel Sousa
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O café gerido por Lúcio Sousa é o local de reencontros em Penafiel. Quatro homens sentam-se à mesa, nas mãos partilham um CD gravado há mais de duas décadas. Lúcio, Zé Tó, "Joquinha" e Jorge Alves têm hoje vidas distintas e rotinas afastadas dos palcos, mas no início dos anos 2000, eram integrantes, juntamente com o Miguel Júnior e o Serginho, dos “Sentido Único”. O projeto começou sem nome, era uma banda movida “pelo gosto da música”, impulsionado pelo convívio dos tempos de escola e pela passagem de alguns elementos pelo grupo coral de Milhundos. Rapidamente, o que era um passatempo transformou-se num objetivo sério, “a nossa ideia era alcançar o estrelato, era atingir o panorama musical nacional” afirma Zé Tó, o antigo teclista, atualmente com 53 anos. O esforço materializou-se em dois registos gravados, um integrado num projeto para jovens músicos promovido pela Câmara Municipal de Penafiel e outro, um álbum totalmente de originais, gravado em Braga com o produtor Giovanni Goulart. Zé Tó ainda guarda a memória dessa conquista. O desempacotar da primeira caixa de discos físicos foi o culminar de esforços e ensaios diários, “é um misto de emoções, um bocadinho de medo, um bocadinho de alegria”, revela, acrescentando que” por outro lado era alguma responsabilidade por termos atingido aquele objetivo”. O primeiro exemplar entregou aos seus pais, figuras centrais que apoiaram o projeto, onde os sacrifícios eram maioritariamente financeiros, “se fosse às minhas custas, eu não conseguia avançar”, reconhece. O choque com as exigências comerciais, no entanto, foi imediato. A ausência de contactos estruturais e poder de agenciamento fechou-lhes oportunidades. Zé Tó recorda um episódio na feira da Agrival, onde foram convidados a atuar, mas acabaram dispensados e mandados embora devido a um “problema na montagem do som”. Para o músico o diagnóstico do mercado nacional é claro, “há falta de produtores”, queixa-se, “nos Estados Unidos há vários, é como olheiros do futebol, mas para bandas”. Esta dificuldade em penetrar no mercado sem grandes conhecimentos é um problema que continua até aos dias de hoje. Segundo dados da Associação de Gestão de Direitos de Produtores Fonográficos relativos a 2025, a vontade de criar música em Portugal é grande, uma vez que 75% dos mais de cinco mil lançamentos anuais são de artistas nacionais. Porém, na hora do consumo, o cenário inverte-se, com o repertório internacional a dominar 81% do mercado. No caso dos “Sentido Único” os problemas financeiros não foram o único obstáculo. Embora tivessem o apoio dos familiares, a profissionalização exigia um risco total “era preciso investir-nos a 100%, não continuar cada um com o seu trabalho e ter uma banda a part-time”, diz o antigo teclista. O fim da banda aconteceu de forma pacífica, por volta de 2002. A vida adulta e as exigências académicas ditaram o fim dos ensaios diários. Zé Tó entrou na Escola Superior de Educação no Porto para tirar o curso de Música, “acabei por me afastar inconscientemente e, comigo, outros começaram também a afastar-se”, reflete. Atualmente, Zé Tó é professor de música na Madeira. Confessa que mantém os antigos colegas “no coração”, mas quando ouve o CD que gravaram juntos, fá-lo com o distanciamento analítico de um profissional da área, “já não me identifico com a sonoridade nem com o tipo de música”, admite, garantindo que com o conhecimento técnico que detém agora, alteraria os detalhes de masterização do disco. Na mesa daquele café, o CD que os quatro amigos seguram é atualmente um documento de arquivo, que representa o auge de uma ambição de seis jovens que esbarrou num país sem estruturas sólidas para amparar artistas independentes. Zé Tó garante que “não olha muito para trás”. A banda falhou no objetivo de alcançar o panorama nacional, mas ganhou noutra frente, a falta de apoios destruiu a viabilidade comercial do projeto, mas foi incapaz de acabar com a amizade. Não conquistaram o país, mas guardam-se “para todo o sempre”. Texto de Catarina Couto (aluna do curso Ciências da Comunicação da Universidade do Minho)
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